O objetivo principal deste trabalho passa por analisar o manual
El principal objetivo de este trabajo es analizar el manual
The main objective of this study is to analyze the manual
A enfermagem é uma profissão que, como tal, foi amplamente desenvolvida a partir dos anos de oitocentos. Considerados como essenciais nas instituições assistenciais, os enfermeiros apresentaram, até essa época, uma aprendizagem fortemente marcada pela experiência e pela hierarquia. Foi a partir dos anos de novecentos que a educação dos enfermeiros se consolidou, passando a apresentar uma certa tendência para a especialização. Em Portugal, a partir da primeira metade do século XX, os enfermeiros poderiam exercer funções como parteiros ou como enfermeiros psiquiátricos, ou, inclusive, como visitadores.
Ainda assim, a educação no âmbito da profissão da enfermagem foi sendo regulada e monopolizada pelo saber médico, assentando amplamente em manuais construídos pelos professores ou em resumos de lições - professores esses que, habitualmente, eram médicos que davam aulas em escolas de enfermagem. Esses manuais eram de grande importância, visto que regularmente apresentavam revisões teóricas acerca de diferentes patologias, sobre farmacologia e ainda neles eram explicados procedimentos e técnicas a serem utilizados pelos enfermeiros.
Nesses manuais, e em outros já desenvolvidos nos anos de oitocentos,
A análises destes manuais é essencial para compreender o ensino da enfermagem que se desenvolveu após a sua profissionalização, que foi amplamente marcado pelas relações existentes entre as instituições assistenciais e as próprias escolas de enfermagem,
Tendo em conta este contexto, e atendendo à especificidade da tendência para a especialização no âmbito da enfermagem em meados do século XX, o objetivo da nossa investigação passou por analisar a obra
Parte da tarefa de quem estuda a história da enfermagem passa por fazer questões e reflexões acerca de determinados temas. Obviamente, ao abordar a história da enfermagem colonial, deve-se ter em conta aspetos e interrogações relacionados com especificidades sociais, raça, género ou com as próprias políticas presentes nos contextos coloniais.
Em 1895, tinha sido fundada, por Lady Mabel Piggott, a Colonial Nursing Association,
Ainda assim, voltemos ao tema deste artigo, que é a análise de um manual para enfermeiras tropicais, porque, na verdade, o autor da obra iniciou a mesma com a referência à enfermagem no feminino, à
Na introdução, o autor apresentou uma série de pressupostos e informações relativos à preparação da enfermeira para o trabalho nos países tropicais, e é dado relevo à necessidade de a enfermeira ter conhecimento e experiência. Aliás, o autor refere até, logo no início da introdução (p. 1), que «
Aliás, as doenças tropicais que o autor apresenta deviam, na sua perspetiva, ser conhecidas pela enfermeira, tendo esta de manter o bom humor e uma atitude mental correta, que a iria ajudar a cumprir as suas funções com alegria, minimizando o cansaço. No atendimento às populações autóctones, a enfermeira podia encontrar algumas dificuldades relacionadas com superstições, crenças ou ignorância, que deveriam ser superadas com tolerância, respeito e compreensão. Em relação à sua higiene pessoal, o autor indicou uma série de cuidados que a enfermeira devia ter com o vestuário e calçado, assim como com a sua alimentação, hidratação e atividade física. Mais, o autor foi tão específico nesta secção que chegou a dar indicações para o vestuário íntimo da enfermeira, os cuidados que devia ter com a sua depilação e com o seu próprio comportamento, em especial a nível social. Todavia, foi ainda mais além, visto que apresentou algumas indicações em relação até ao ciclo menstrual da enfermeira: «
As doenças tropicais apresentadas na obra são vastas e a sua descrição é bastante complexa. São elas: beribéri, esquistossomose, cólera, linfogranuloma venéreo, dengue, miíase cutânea e intestinal, tinha crural, disenteria, filariose linfática, doenças provocadas pelo calor, ascaradisíase, ancilostomíase, dracunculose, teníase, leishmaniose, lepra, malária e suas complicações, pelagra, peste, raiva, febre relapsa, febre da areia, picadas de escorpião e mordedura de aranha e cobra, doença celíaca, tripanossomíase, tifo, feridas ulcerosas, brucelose, treponematose endémica e febre amarela. No tratamento de todas estas doenças ou complicações, a enfermeira devia ter um papel ativo, sempre sob supervisão do médico assistente da região e tendo em conta a sua obediência ao mesmo.
De referir que a doença mais explorada pelo autor foi a malária, com as suas diferentes fases e manifestações, e aquela patologia que o autor mais destacou em relação à ação da enfermeira foi a febre amarela, visto que foi bastante explícito e pormenorizado em relação ao que seriam as responsabilidades e procedimentos a adotar no âmbito da enfermagem. Por exemplo, no cuidado a um doente com malária, competia à enfermeira vigiá-lo durante as diferentes fases da doença, substituindo-o em todos os autocuidados de acordo com a sua necessidade, alimentando-o e hidratando; devia igualmente administrar a quinina necessária, atendendo ao curso da doença; devia monitorizar sinais vitais a cada quatro horas, e, inclusive, verificar a manifestação de alucinações e/ou delírios - entre outras tantas intervenções. No cuidado ao doente com febre amarela, numa fase inicial da doença, a enfermeira devia promover o alívio dos seus sintomas, através de arrefecimento corporal se necessário, ou, por exemplo, através da colocação dos pés em água quente com grãos de mostarda, da colocação de pomadas de terebentina ou folhas de mostrada na região abdominal e/ou costas; a enfermeira podia administrar aspirina ou fenacetina em caso de febre, não devendo usar morfina; a hidratação do doente devia ser realizada de forma abundante e era suposto monitorizar a eliminação urinária diariamente.
Em geral, as intervenções a realizar pela enfermeira, de acordo com o autor, diziam respeito à manutenção do autocuidado, à vigilância das condições mentais do doente e seus comportamentos, à vigilância de sinais e sintomas, à monitorização de sinais vitais, assim como à promoção da saúde e prevenção de problemas, estabelecendo inclusive intervenções de educação para a saúde. Por exemplo, a nível de prevenção e educação para a saúde, tendo como foco a malária, a enfermeira devia ter especial atenção à presença de mosquitos, ao uso de fumigações, à utilização de redes de proteção para os leitos, ao uso de botas adequadas e de repelentes, e, ainda, ao uso de quinina profilática. A doença celíaca, ainda em estudo na altura em relação às suas causas, foi considerada uma doença tropical pelo autor, e aí a enfermeira desempenhava um papel fundamental, tanto naquilo que dizia respeito aos ensinos sobre alimentação, como à importância da monitorização do peso do doente.
As técnicas apresentadas na obra são variadas e a maioria só poderia ser aplicada com indicação médica. São exemplo das mesmas: aplicação de banhos, colheita e exames de sangue, transfusões de sangue, lavagem intestinal, pulverização fria, desinfeção e eliminação das excreções, testagem de alimentos, execução de bolsa de calor, uso de hipnóticos e analgésicos, arrefecimento corporal através de gelo, administração de injetáveis intramusculares e endovenosos (material exemplificado na
| -Aplicação de banhos (específicos para as caraterísticas sintomatológicas de cada doente); -Realização de ensinos sobre uso de vestuário; -Realização de ensinos sobre alimentação; -Realização de ensinos sobre higiene. | |
| -Administração de hipnóticos e analgésicos; |
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| -Testagem de alimentos; |
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| -Realização de pulverização fria; |
Fonte: Gregg, Arthur Leslie. Tropical nursing: A handbook for nurses and others going abroad. Nova Iorque: Philosophical Library, 1944.
Confrontando o conteúdo deste manual com outros manuais deste período, que não eram da área da saúde tropical, conseguimos perceber que o mesmo vai de encontro ao que era pretendido em documentos/livros desta natureza. Podemos indicar o
Ou então, ainda em ambiente doméstico, é possível também ter em conta a obra portuguesa
Já na Idade Moderna, antes da profissionalização da enfermagem, procurou-se desenvolver fontes documentais de conhecimento para os enfermeiros, como foi o caso das obras
Em relação à obra aqui apresentada, é necessário fazer uma ressalva no que diz respeito à época em que a mesma foi editada, em 1929 e 1944, períodos que se encontram associados a contextos de guerra e instabilidade, mas que também se encontram, ainda, relacionados com a existência e permanência do colonialismo. É certo que o médico que escreveu a obra, Arthur Leslie Gregg, lecionou para enfermeiros no Hospital for Tropical Diseases (tal como se pode confirmar na própria obra), em Londres, apresentando ele próprio experiência clínica nessa instituição. Ainda assim, esse Hospital foi alvo de diferentes mudanças durante a primeira metade do século XX,
É interessante verificar inclusive a contextualização, tal como mencionado anteriormente, visto que muitas das fontes documentais relativas à saúde tropical, de inícios e meados do século XX, diziam, então, respeito a um colonialismo, que marcou a política internacional desse período. Ao nível da enfermagem, a questão da nomenclatura é essencial, pois dessa época ressalta a enfermagem colonial,
Em jeito de conclusão, refira-se que o manual objeto de análise e reflexão que foi aqui apresentado contém considerações sobre a atividade e os cuidados das enfermeiras em ambiente tropical. Todavia, refere igualmente um aprofundamento teórico em relação às medidas corretas de higiene a aplicar num espaço com clima tropical e das doenças tropicais. É interessante verificar, no manual, a determinação médica acerca daquilo que era o conhecimento em enfermagem e a definição dos deveres de uma enfermeira. Se, por um lado, à enfermeira cabia conhecer conceitos e técnicas, por outro lado, cabia-lhe igualmente uma certa dedicação vocacional e integral, espelho daquilo que devia ser a obediência, em acordo com os ainda pressupostos de enfermagem de meados dos anos de novecentos.
Para futuros caminhos de Investigação, deixamos, em particular, a sugestão de aprofundamento da história da enfermagem tropical em Portugal, sobretudo na primeira metade do século XX, que se encontra em profunda conexão com a enfermagem colonial e, consequentemente, com a enfermagem militar e a enfermagem religiosa. Será necessário aprofundar estes dois últimos âmbitos de atuação dos enfermeiros portugueses, não só porque dão contributos para a compreensão da enfermagem portuguesa, mas também porque marcaram este domínio, e a assistência à saúde nos países que estiveram sob domínio português ou em estreita relação com Portugal.